Que venham as águas de março!

imagem de Elmira Mattos

Que venham as águas de março!

Será mesmo que o calor insano vai dar uma trégua? Há quatro dias o tempo refrescou, e estou aqui fazendo figa pra vingar essa temperatura outonal... Com mais de cinquenta anos de vida, não me recordo de ter sentido tanto calor como neste verão. Nunca, jamais, em tempo algum, na história do Rio, se viu quentura assim! O Astro Rei, num gesto incivilizado, decidiu atacar impiedosamente os cariocas com seus raios escaldantes. A cidade é acalorada, sabemos disso. Sua fama de “caliente” e animada é reconhecida mundo afora. Mas tornar-se o segundo lugar mais quente do planeta, como noticiado recentemente, parece mesmo uma conspiração solar. Superamos várias cidades africanas e até o lendário deserto do Saara...

Mas agora - queiram Deus, Buda e Maomé! - sopra um ar mais refrescante. Até então, os raros e curtos temporais que aconteceram aqui e acolá, não foram capazes de refrescar nada; ao contrário, atiçavam a quentura. Conclusão: mais abafamento. A alta umidade do ar, como é sabido, produz uma sensação térmica que aumenta o calor em oito ou nove graus. Portanto, estivemos sempre próximos dos 50ºC. Frente fria? Só ficando na frente do ar-condicionado, com o corpo molhado, ou então abrindo a geladeira. Chegamos a considerar um dia fresco quando o termômetro marcava 34ºC, na sombra!

Podíamos ter rezado pra São Pedro poupar a cidade de São Paulo, trazendo um pouco daquele aguaceiro pra cá. Sem desgraças, é claro! Nada de enchentes, nem desabrigados, apenas uma boa e refrescante chuva, pra lavar nossas almas aflitas e incandescentes. Ou então ter feito uma doação aos EUA, cedendo uma generosa parte do nosso calor para derreter a neve que ainda está congelando o país de Obama. Mas o mundo é injusto mesmo... E a tal da camada de ozônio está com seus buracos muito mal distribuídos: a grande concentração deles está bem aqui, em cima do Rio, tostando a pele e os neurônios dos cariocas. Mas tenho fé que vai melhorar, se a atual previsão de queda da temperatura não nos pregar uma peça...

Já era tempo de amenizar a sensação de sauna. Ninguém merece o calor que tomou conta da cidade. Pobre de quem trabalha encarando os ônibus sem refrigeração. Trens e Metro, sempre lotados e abafados, também maltratam quem labuta. E os homens que precisam usar terno e gravata? Eu sucumbiria... Se usando o modelito básico feminino - vestidinho e sandália rasteira - sinto o tormento, posso imaginar o sofrimento masculino. Meias, sapato social, calça, cinto, camisa, gravata e, pra completar a armadura, paletó! E os policiais, com aqueles uniformes pesados? Santo Deus, é de matar... mesmo não sendo atingido nas frentes de batalha. Mas há dois dias que venho usando guarda-chuva, que alegria! Espero tê-lo como companheiro amanhã, e depois, e depois...

Calor excessivo tira o prazer de muita coisa. Tomar sorvete de casquinha em dias abrasadores é uma comédia! Em segundos vira milkshake escorrendo pelos braços. Nas tórridas areias de Copacabana, enterrando-se um ovo por alguns minutos podemos comê-lo quente, como desjejum... Esperando até o meio-dia, podemos comê-lo cozido, como almoço. É uma idéia prática para aqueles que cumprem o expediente na praia. Bebendo água de coco pra acompanhar as refeições, ficam alimentados e hidratados. E pra refrescar os miolos, o azul e calmo Atlântico. Mas no último fim de semana, finalmente, pude ver o mar cinzento e ressacado... E achei lindo!

No carnaval o inferno mudou de endereço, instalando-se de mala, cuia e sem barraca aqui na Cidade Maravilhosa. Os ambulantes de plantão devem ter faturado para o ano inteiro. Um amigo meu, que ainda aguenta se enfiar nos blocos e bandas, disse que a garrafinha de água mineral estava pela hora da morte, super cotada: gelada, custava R$ 2,50... E estupidamente gelada, custava R$ 3,00. Foi aplicada a lei da oferta e procura, com valor agregado.

Hoje tomei um chá, gostoso e quentinho. É bem mais civilizado do que precisar beber tudo gelado, pra matar a sede... Tom Jobim não me sai da cabeça: “é o fim do caminho... é a chuva chuvendo, é o vento ventando, é um pingo pingando... São as águas de março fechando o verão!”

É promessa de vida em nossos corações acalorados...

imagem de Elmira Mattos

Caro Fabbio, seus elogios me deixam lisonjeada. Afinal, um poeta que transita com garbo e estilo no mundo da poesia, e ainda arranja tempo para ler e comentar minhas crônicas... nossa!
Muito obrigada!
Abraços,

 
imagem de EX-USUÁRIO-04JUL2010

Estimada Elmira,

gostaria muito para convidá-los, você e nossos amigos que sofrem com calor brasileiro e de Portugal, a virem aproveitar o clima frio do Paraná.

Nâo posso!

Aqui está um calor "da bexiga", como dizemos em Minas Gerais.

Assim, quando for organizar a passeata "abaixo o calor de 40", inclua-me em sua lista de convidados.

Grande abraço, lembranças a sua gata de estimação e parabéns pelo texto.

 
imagem de EX-USUÁRIO-09JUL2010

Prezada Elmira,

Primeiro quero parabenizá-la por sua fluência escrita e inteligência viva: como é agradável ler você, menina!

Quanto a este seu texto: olhe, que calor é esse, hein? Sou carioca, mas branco que só... quase verde! (rs) E como sofro. Andam dizendo os especialistas "Faz 40°, mas a sensação térmica é de 50". Será, meu Deus? Então não tem jeito, vou derreter, pois nem sei mais se eu suo ou se eu é que escorro do suor; ou talvez sejamos uma coisa só.

Ah! como é agradável quando a temperatura dá uma trégua. O arrefecimento das ideias, trazendo-nos pensamentos mais finos. E roupas mais elegantes. E a possibilidade - como você disse - de um belo chá fervilhante, quem sabe na companhia de quem a gente gosta, ou conosco mesmos, ouvindo músicas de qualidade.

É... mas é o Rio, é o Brasil... e o lado positivo também é imenso, não é mesmo? Aproveito a deixa para comentar seu texto sobre o saxofonista do centro da cidade (não o soube fazer lá onde o postou porque ainda estou aprendendo a lidar com o portal; psiiiiu, a propósito andei dando umas vaciladinhas quanto às regras; mas já estou me acertando... E o HMoura é muito paciente e benévolo). Mas voltando, Elmira: crônica linda! Se é o mesmo saxofonista em que estou pensando... deve ser. Muito legal, de fato. Realmente essas pessoas dão uma cor especial à atmosfera carioca.

Grande abraço,
E tenha-me como mais um dentre seus leitores frequentes.
Fabbio

 
imagem de Adrifil

Elmira, como sempre é um prazer ler um texto seu. Com um rico vocabulário e criatividade, você dá uma vida extra a coisas mundanas. O seu texto é tão bom e real que sentimos como qualquer carioca a quente opressão que o Astro-Rei espalhou sobre o Rio e o posterior alívio pela descida brusca da temperatura.
Por cá, desejamos o oposto, i.e., que o frio se vá e chegue algum calor. São as águas de Março fechando o Inverno. :)

 
imagem de Cristina de Matos

Adoro essa canção, a letra é linda e muito bem apropriada a esse tempo "malvado" que está assolando o Mundo.
Calor excessivo, vendavais um pouco por todo o lado e enxurradas assassinas. Acho mesmo que a Mãe Natureza está zangada com a gente. Na vol,ta tem razão, os Humanos andam fazendo tanto mal....

Parabéns Elmira, um texto atual e muito bem escrito. Como é seu hábito.
Um dia mais ameno para vocês e um dia com menos chuva e intempéries para nós.
Bjs

 
imagem de Astros

Que chegue,então,um pouco de frescura!
Mas também de acalmia dos elementos deste planeta,que não tratámos bem em nome de uma descuidada modernização;porque tudo poderia(tanto conhecimento adquirido!) e devia ser mais harmonioso com a Natureza de que fazemos parte...

Por Copenhaga,numa recente cimeira,ainda muitos poderosos resolveram continuar a fazer de conta,como se apenas os interesses económicos tivessem significado!
A "vingança" celeste,tem sido servida bem fria,com estragos e vidas perdidas.

Retirando o sufoco do calor que os esquentou,o facto inspirou um belo texto!
Magnífica essa ligação a uma canção lendária e tão bonita.
Que cheguem,então,"as águas de Março" e a frescura,tudo com amenidade e sem zangas celestes!
A.

 
imagem de hmoura

Sempre fui maior admirador e defensor do Sol,
do calor, do Verão. Mas, tenho que concordar
com você, Elmira! São Pedro abusou (se isso
for coisa de São Pedro)... Mas ele abusou, tirou
partido de todos nós!

Passamos dos insuportáveis 42 graus para 22, da
noite pro dia. Coisas do Rio de Janeiro!
Só para lembrar que 22 graus é a temperatura
média dentro de aeronaves. Algo confortável,
admito.

Seu texto está delicoso, como lufadas de vento
fresco no calor do Rio. Gostei muito!

Só não desejo que, junto com as águas de março
venham também os desmoronamenos e enchentes, tão
comuns nessa época do ano.

É pau. É pedra. É o fim do mundo esse calor
assustador de 2010.

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