O que vou fazer com tanto dinheiro?
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Eu suava tanto, mas tanto que não sabia se era efeito apenas do calor insuportável do Rio ou se havia também sintoma de medo.
A mulher siamesa falou bem baixinho, olhando nos meus olhos:
- Botaram serviço no senhor e foi coisa pesada. Vejo muita desgraça e a morte se aproximando...
Pensei em perguntar de que lado vinha a dita morte. Se pelo lado da Rua da Assembléia (atrás de onde eu estava) ou pela Rua Senador Dantas, bem ali, adiante. Pensei, mas não perguntei ou iria estragar tudo.
Tremi rapidamente o lábio inferior, juntamente com o queixo. Sei fazer essa cena de medo com maestria. Nem as vítimas do tal Fred Krueger fariam melhor.
- O que vai acontecer comigo, minha senhora? Eu vou morrer mesmo?
- Vai. A menos que venha comigo. Levo o senhor agora num lugar e meus amigos podem retirar o encosto que há no senhor. Vai custar só 20 mil reais! Mas por esse preço tem que ser agora!
Minha Nossa! Vinte mil reais? Melhor morrer, pensei! Essa foi a parte de que mais gostei. A siamesa mulher sabia negociar... Parecia com alguns vendedores de automóveis que têm preço excelente, mas a compra "tem que ser hoje"!
Um vendedor de mate passou bem próximo, oferecendo o produto dele, "bem gelado". Na banca de jornais, Beto Pagodinho cantava "deixe a vida me levar, vida leva eu". Lá no alto, Santo Antonio, no Convento, parecia dormir, alheio à minha "desgraça". A rotina era a mesma de sempre no Largo da Carioca. Ninguém notava em mim. Ninguém era solidário, mesmo eu estando a 20 mil reais de morrer. Ingratos! Conterrâneos ingratos! Até tu, Santo Antonio?

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O Convento de Santo Antonio, visto do Largo da Carioca
Viajei um pouco no tempo e lembrei da minha querida amiga de Vitória, Espírito Santo. Há mais de vinte anos ela foi também abordada, só que o "encosto" estava no marido dela... Que poderia morrer a qualquer momento, se ela não pagasse fortuna para fazerem o serviço. Ela pagou, pobre coitada. À vista! O valor, à época, dava para comprar um bom carro zero KM. Ela pagou e o marido morreu! Aliás, como deve acontecer com todos os que estão vivos! Morrer...
Voltei o pensamento novamente ao Largo da Carioca e fiz o que minha amiga de Vitória deveria ter feito. Aproveitei que havia muita gente circulando e, então, de supetão, abri os braços, pedi espaço e gritei bem alto:
- Oh, meu Deus, esta mulher disse que vou morrer agorinha mesmo, nesta porcaria de Largo da Carioca. Ou pago 20 mil ou morro mortinho...
Ninguém faz idéia do que é capaz alguém que está prestes a virar defunto. Não há timidez, não há medo, não há nada, além de vontade incontrolável de sobreviver. Foi o que ocorreu comigo!
Meus gritos atraíram tanta gente que eu parecia ambulante em exibição... Daqueles que engolem "giletes" ou fazem papagaiada em troca de moedas! O povo veio chegando e a mulher foi saindo, saindo, saindo... Em direção a Rua Senador Dantas (a mesma de onde poderia estar vindo a morte, a minha linda morte!). O povo vaiou e ela correu... Correu feito lebre assustada!

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A Rua Senador Dantas, para onde a "lebre siamesa" fugiu!
Diserram-me que tem sempre alguém por ali, tentando pegar os incautos. Eu agradeci a presença do "público" e voltei para os meus afazares...
No caminho de volta para o trabalho, pensei: Já que economizei 20 mil reais, o que vou fazer com tanto dinheiro? Bingo! Vou comprar livros que, aliás, foi o meu objetivo quando me desloquei para o Largo da Carioca, centro do Rio de Janeiro.
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- 167 leituras

Uma beleza de crônica e que fotos lindas!!!
Fiquei "bôba" de ver o alto preço para desfazer o mal que te alcançaria e como você foi "corajoso" em tornar público o "assalto" fazendo a cara de pau correr assustada!!! rsrsrs
Abraço
H. Moura,
Estou adorando ler os seus textos.
Que bom que vc resolveu escrever em pagina literária. Um grande abraço,
Aziza
Caro editor, ri muito com o seu texto!
E sua reação, foi impagável... Quer dizer que a gata, no susto, correu como lebre assustada? Rs... rs...
Gostei da prosa, e ainda das belas fotos.
Abraços
estimado mestre, tenho uma premonição de que você é um excelente escritor. Mas para lhe detalhar dita premonição na íntegra, você precisaria contribuir com os vinte mil reais (se ainda não comprou os livros, é claro!).kk.
Grande abraço,