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O Destemido Aderbal

Aderbal, filho do senhor Antenor Pacheco Amado e da Dona Augusta Chaves Amado Franco, era o exemplo típico de um homem muito destemido e arrogante, e todos o imaginavam insuperável na arte da intimidação devido a sua presença física.

Homem de desenvolvimento avantajado, mentalmente nem tanto, famoso pelas diversas participações em campeonatos mineiros de "jiu-jtsu", com vários títulos, trazia na face as cicatrizes das diversas batalhas em que participara e nas orelhas aquela aparência de papelão molhado característica dos valentes praticantes daquela arte marcial.

O seu olhar confundia a todos que se atrevessem encará-lo: era um misto de cachorro louco com porteiro de casas noturnas. Havia quem ousasse nas rodinhas fechadas e, somente nelas, a chamá-lo de "olhos de cebola" (faziam chorar!). Mas nunca, nunca mesmo, alguém a lhe atravessar o olhar, nem mesmo de rabo-de-olho. Isso não!

Sim, certamente ninguém na cidade de Coronel Murta, um dos redutos das mais belas pedras preciosas de Minas Gerais, seria corajoso o bastante a ponto de enfrentar aquele brutamontes. Ninguém em sã consciência, diga-se de passagem. Dizem até que nem o Exército Brasileiro ousou incorporá-lo em suas fileiras. O sujeito era osso duro.

Recebeu com todas as honras a chave da cidade das mãos do senhor prefeito, o Doutor Paulo Serrado - aqueles das rodinhas fechadas contam que Aderbal procurou a porta da cidade por um bom tempo - e recebeu também os diplomas de Amigo da Polícia Militar e de Amigo da Polícia Civil do Estado. Deixou, inclusive, muita gente enciumada. As autoridades "gostavam" muito daquele rapaz.

Aderbalão, como era "carinhosamente" conhecido na região, tinha histórico pitoresco de haver internado cerca de vinte homens (os quais não estavam em sã consciência... nem antes e nem depois das pelejas) no hospital das Tulipas, dirigido pelo Doutor Cornélios Amado Neto, seu tio por parte de pai. Justiça seja feita, sempre por motivos nobres como por exemplo quando algum desavisado esbarrava nele em um baile ou quando, a exemplo de Armandinho que ficou conhecido como "mancha roxa" por ter seus olhos batizados por Aderbal, simplesmente porque comemorava um gol do glorioso atlético mineiro (nosso amigão era cruzeirense, também "roxo").

Também pudera, e nem só por isso, o juiz da cidade, o Doutor Geraldo Magela Franco, também seu tio por parte de mãe, era um sujeito que fôra no passado uma espécie de Aderbal requintado. À época ele praticava tiro com armas de fogo. E, certamente, via em seu amado sobrinho apenas um não compreendido pela sociedade. Todos os casos de representação contra Aderbal, que chegavam ao Doutor Geraldo, eram arquivados por falta de provas. Pra dizer a verdade, não houve tantos casos assim. Apenas dois e de um mesmo autor, o Zé das Pombas que, por sinal, sumiu misteriosamente da cidade logo após o arquivamento do segundo caso que impetrara, referindo-se a um extermínio de quinze pombinhas suas. Que família!

- Aderbal, seu mala. Volte lá dentro e apanhe a minha bolsa!
Com essas palavras de afeto e amor proferidas por Lurdinha, sua noiva, no momento em que deixaram o restaurante do senhor Miguel Labuta, onde tinham acabado de almoçar em comemoração ao primeiro dia de namoro, já prontos para entrar no carro, o bairro de São Cipriano, refúgio de gente boa da cidade, encanta-se majestosamente em um silêncio profundo. Todos olharam para todos ao redor imaginando o que estava passando na cabeça daquela moça que chegara de mudança na cidade havia dois dias. Todos esperado a reação de Aderbalão, que não levava desaforo prá casa. Mas não levava mesmo. Não o Aderbalão que a cidade conhecia. Hum... hum...

O senhor Miguel, coitado, acabara de aliviar-se por ter o nosso amigo saído de seu restaurante e deixado tudo como encontrou na entrada, tratou logo de desmaiar somente pelo pensamento que lhe apossou a cabeça - a explosão de raiva de Aderbal - pobre senhor Miguel, desmaiava pelo menos umas quatro vezes por dia... sofria de pânico repentino (igualzinho àqueles macacos-babuínos africanos). Qualquer coisinha assustava o Miguelim Soneca - seu nome de trabalho - que dirá a "explosão de raiva do Aderbal".

O senhor Sebastião, dono da padaria, sorrateiramente abaixou a porta de seu estabelecimento até a metade com um cuidado tal que os mosquitos continuam pousados nos pães como se não estivesse ocorrendo nenhum movimento. Tiaozinho do pão-duro, como era conhecido, sofria de pressão alta e imediatamente tomou seus remedinhos receitados pelo Toninho da farmácia, da rua de baixo. O Toninho era teimoso, vendia remédios sem receita mesmo depois de diversas orientações da Secretaria de Saúde do município.

Dona Margarida, que estava havia horas debruçada em sua janela sobre uma almofada confeccionada de sobras de tecidos (Dona Margarida era costureira), rapidamente fechou sua matraca que estava a matracar com Dona Matilde, vizinha que morava ao lado, também debruçada em sua janela sobre uma almofada - coisas de matraqueiras - também de retalhos. Ambas direcionaram, em ato contínuo, seus olhares e ouvidos na direção do episódio que estava, como de desejo de todos, pra acontecer.

O senhor Cirilo, ah... o senhor Cirilo, cigarro na boca, mangueira na mão, chinelo de dedo, bermuda, camisa aberta até o umbigo, aguando seu jardim de hortênsias, de súbito tomou outro rumo na sua tranqüilidade aparente. Arrumou logo um jeito de fechar a torneira, começou a recolher sua mangueira discretamente enquanto passava a observar por cima dos óculos bifocais a cena que se desenhava - cena de cinema - a custo zero, bem na frente de sua casa número 71.

O padre Orlando, pároco da Igreja Nossa Senhora de Fátima - única da cidade - ajoelhou-se à frente da imagem da santa e começou a rezar de terço na mão pois sabia que boa coisa não iria acontecer. O padre Orlando era irmão (cidade pequena) do senhor Sebastião, e também sofria de problemas de pressão (a dele baixava) e, a exemplo do Tiãozinho do pão-duro, com a mão que não segurava o terço levou seu remedinho à boca continuando sua reza. Nesse momento ele já estava rezando pela noiva e por sua própria saúde. Pobre padre Orlando. Detestava políticos.

O Zico da Onça - apelido que recebera por ter, na cara-de-pau, afirmado que havia enfrentado a pintada na época em que trabalhou na Amazônia - de tão corajoso, subiu em sua carroça e, fingindo-se de sonso, ficou quietinho deitado e observando pelas gretinhas o provável desenrolar do caso. O Zico, uma espécie de "faz tudo", estava trabalhando no jardim da praçinha 13 de Maio que, a exemplo da igreja do padre Orlando era a única da cidade.

E nesse cenário "Hitchcockiano" que se formou na pequena cidade das pedras preciosas estavam todos, rigorosamente todos, a observar a reação de Aderbal ante aquele "desaforo" de Lurdinha.

- Fale alguma coisa Aderbal!

- Meu Deus, quem foi esse maluco?
Pensou o Zico da Onça, àquela altura com a roupa já molhada pela "adrenalina" de sua intrepidez. Havia também um cheirinho desagradável no ar, mas dizem as más línguas que a culpa era do cavalo panga. "Dizem"!

Era o menino Joãozinho, neto do senhor Miguel, de apenas sete anos de idade e não conhecedor da lenda viva, que inocentemente gritou lá de dentro do restaurante - de imediato levou uma cocada do vovô - e foi choramingando para a cozinha, buscar conforto no colo da vovó Jurema.

Aderbal, já vermelho e bufando e suando frio, olhando em todas as direções, com as mãos fechadas, os braços se elevando aos céus lentamente, os olhos em brasas, como se fosse uma locomotiva prestes a explodir... disse:

- Sim, meu amor. Vou buscar sua bolsa agora mesmo!

“É... Já não se fazem mais Aderbais como antigamente!”

imagem de GersonLoyola
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A história de Aderbal

imagem de Adrifil

Esta história prendeu-nos a atenção do princípio ao fim. Apreciamos a caracterização dos personagens e o modo como você foi colocando os vários elementos até se chegar ao final. Parece o prelúdio de uma cena de duelo no faroeste, quando toda a gente foge e se esconde mas sem querer perder pitada do que vai suceder.
Parabéns por este excelente texto.