Era mesmo uma data festiva aquela. Família tradicional reunida na casa do patriarca, o senhor Pacheco com seus setenta e oito anos de idade. Estavam todos sorrindo, dando graças pela passagem do belo dia do nascimento de Cristo. Todos se dando as mãos, aos abraços e beijos e desejos de uma vida ainda melhor. Tudo parecia muito bem encaminhado, naquela tarde ensolarada de domingo, para uma pacífica e marcante noite de natal.
Tudo, não fosse por uma pequena criaturinha de cinco anos, sentadinha lá no cantinho da sala, com seu vestido rosa de rendinhas, tendo nas mãos sua linda bonequinha e apresentando uma trombinha capaz de invejar ao velho “Dumbo” nos seus melhores dias.
Despercebida passaria em meio àquele ambiente festivo, não fosse a experiente percepção de Mateus, um indivíduo do alto de seus oito anos muito bem vividos e de fino trato com os assuntos relativos a mau humor de crianças – ele tinha dois irmãos mais novos – um “perito”.
Nosso herói saiu da ala leste da sala, onde se encontrava recém-chegado, e atravessou destemido a sala, tendo o devido cuidado para não pisotear pelo caminho seres ainda menores como eram a priminha Viviane e o irmãozinho Thiago, ambos de três aninhos, em direção à princesinha que, num misto de tristeza e raiva, soluçava intermitente a breves suspiros e respingos de lágrimas... doces... lágrimas.
- Posso ajudar?
Indagou Mateus, talvez imaginando-se o mais novo herói do pedaço.
- Quem é você?
Com a peculiar característica de uma criança que não conversa com outra pessoa sem dela saber ao menos o nome, respondeu questionando nossa pequena do misto de “tristeza e raiva”.
- Sou seu primo Mateus, do interior, e sei quem você é. Você é a Carolina, filha da tia Magda e do tio Victor. Eu só vim aqui porque vi você chorando e gostaria muito de ajudar. Posso?
Com esse efervescente discurso, como seria de se esperar, o intrépido príncipe ganhou o voto de confiança de Carol que, por sua vez, não se fazendo de rogada, procurou aproveitar o êxito de uma votação bem sucedida.
- Pode sim! Minha bonequinha, a Emília, está sem uma perna, a direita, e eu não sei onde está. Não tenho a mínima idéia de como perdi. Só sei que estou muito triste e quando minha mãe descobrir, ela ficará muito brava pois eu ganhei a Emília ontem.
Com essa resposta, notadamente, Mateus percebeu a enrascada em que se metera ao tentar bancar o salvador da pátria.
Saíram então os dois, como detetives, a percorrer a casa em busca daquela perna direita da bonequinha Emíla da Carol. Não totalmente em vão, porém sem o sucesso esperado, a busca teve fim por volta das sete horas da noite, pouco antes do horário previsto para o jantar de natal, quando numa última investida em uma das gavetas da cômoda da vovó Maria, Mateus encontrou o sapatinho, e somente ele, da perna sumida da bonequinha.
Limitado pelo tempo escasso, Mateus, num lampejo de astúcia e inteligência, sacou de seu canivete “Mac Giver” e começou a tornear com maestria um graveto que encontrara nos pertences de Diego, um dos outros primos presentes na casa naquele dia, sabe-se lá filho de quem. Tudo escondido de Carolina que estava a vasculhar outro quarto.
Nosso, agora herói artesão mirim, fizera uma perninha de madeira para a bonequinha da Carol, tão perfeita quanto pôde. Encaixou a pequena perninha, cobriu com a calça da boneca, colocou o sapatinho e, sabiamente, pediu à menininha, agora já sem a trombinha e com um misto de alegria e ternura, que o prometesse nunca mais tirar a roupa da boneca para que se evitassem novas perdas.
Carolina prontamente prometeu ao primo, e foi assim... passou, sem saber, toda a sua feliz infância e vários outros natais, mágicos como somente os natais, com sua bonequinha da perna-de-pau.
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Exemplar a solidariedade de Mateus e a boa
receptividade de Carol... Ações elogiáveis
(de ambos) que, lamentavlmente, vão sumindo à
medida que alguns crescem e são "modificados"
pelas vicissitudes da vida!
A narrativa está muito boa!
...
Muito obrigado pela leitura e pelo elogio. Tenha um excelente fim de semana.
O valor que uma simples perna de pau pode ter. Nesta história, foi muito valiosa para a menina por causa da sua boneca mas em muitas outras histórias bem reais e sofridas é-o para as próprias crianças.
Um texto muito bonito! Parabéns e seja bem-vindo à Página Literária.
Gerson, primeiramente, seja muito bem-vindo!
Em tempos onde a criançada valoriza excessivamente as traquitanas eletrônicas, saber que uma menina fica feliz pelo fato de ver a sua boneca "recuperada", é um resgate da ingenuidade infantil. Parabéns!
Abraços