SEMANAS DE 1 A 51
JULHO DE 2008 A JULHO DE 2009

 
 

Título: Você Tem Apelido? 
Publicação:
Semana 35
Autoria e revisão: responsabilidade dos autores
Autor: hmoura -
Quem é | Contato    

Mais deste autor: <anterior - seguinte> | Tudo


Apelido é algo que sempre me desafiou. Ou melhor, eu sempre o desafiei... Inicialmente, porque não gosto de apelidos. Em mim e em algumas pessoas. Depois, porque apelidos, quase sempre, estão mais ligados ao deboche do que propriamente ao carinho.

Não me refiro a apelidos no âmbito familiar, nascidos em função de tratamento amistoso. Não estou citando os casos em que grupos de amigos identificam-se por meio de apelidos cujo objetivo é somente distinguir fulano de beltrano ou mostrar “código” próprio. Não é a isso que me refiro. Também não pensei nos apelidos diminutivos (e sem qualquer intenção ofensiva): Dodô, Tonho, Chico, Zé e coisas assim. Penso naqueles apelidos cuja função é “apenas” ofender e/ou expor as pessoas (esse “apenas” pode ser traumático).

Alguém aqui conhece o “rolha de poço”? Sim, existem, aos montes e indica alguém que passou (muito) do peso. O que você me diz do “filé de borboleta”? Hein? O sujeito é tão magro que “filé de borboleta”, convenhamos, é apropriado. Apropriado, mas não considero prudente chamarmos alguém por esse “nome”, em alguns ambientes.

“Boca de Cavalo” é exatamente o que diz o “nome”... Alguém com bocarra e esta muito parecida com a de um cavalo. “Limpador de rodapé” foi e é usado para pessoas de baixa estatura, em especial anões. “Cara de ônibus”, como podemos imaginar, é o sujeito quadrado e que usa óculos. Cara e cabeça perfeitamente quadradas e com óculos sobre...

Quem gostaria de ter apelidos desses? Ninguém, né? Quem gostaria de chegar, por exemplo, na empresa do pai e saber que o pai é conhecido como “rolha de poço”? Ninguém, né? Mas muitos apelidam as pessoas assim e não se dão conta do mal que estão fazendo. Ou se dão conta mesmo assim não ligam...

Eu jamais tive apelido (dado pelos outros), pois uso antídoto infalível. Como não gosto disso (apelido ofensivo e/ou “engraçado”) criei anticorpos e já peguei muita gente que tentou acabar comigo. Ah. Ah. Ah. Ensino o método, mediante pagamento!

Em todos os locais onde trabalhei (e exerci a função de chefe) jamais permiti que meus subordinados se tratassem por apelidos. Ora, numa empresa alguém ficar tratando o colega por “Zé”? Ou “portuga”? Ou “pirulito”? Ou “Sou da Mamãe”? Ah, nem pensar. Comigo, nem pensar.

Além de tudo, permitir apelidos é dar intimidade, algo que não é para qualquer situação nem é para qualquer um nem para qualquer ambiente.

Por essa razão recomendei a uma colega de trabalho, chefe em outra seção, para acabar imediatamente com a história de chamar o novo funcionário (um contínuo) de “The Flash”, como ela vinha fazendo. “The Flash”, na TV, é aquele sujeito rapidíssimo e ela associou o personagem ao novo funcionário, alguém humilde que estava aceitando a brincadeira de mau gosto talvez por medo. E assim foi por semanas. Até que...

Até que o rapaz, cansado da brincadeira – e como a chefe não se mancava – tomou a iniciativa de acabar com a gracinha. E o fez da maneira mais convincente que a ele pareceu: chamou a chefe de “vaca”. “Sua vaca”, para ser mais exato!

Eu fui testemunha ocular e auditiva e não pude conter o riso (se bem que só Deus me viu sorrindo). Ela, a inconsequente chefe, ruborizou, engasgou e tentou... Tentou usar o cargo para prejudicar o rapaz. Eu não permiti. Fiz intervenção até “violenta” e sugeri que ela, ao contrário, chamasse o funcionário em particular, que pedisse desculpas a ele e que desse o assunto por encerrado.  E falei mais: "quem apelida não pode escolher como será apelidada. 'Vaca' foi até pouco", completei.

Foi assim que aconteceu. O rapaz continua na empresa, claro. Ela também. E todos se tratam pelos respectivos nomes. Apelidos só se for lá fora, no bar ou na esquina.




-------------------
Este artigo e o imediatamente seguinte (ambos de minha autoria)
nasceram em função do texto de Viviane,
sob o título "Sim, Vivi".