SEMANAS DE 1 A 51
JULHO DE 2008 A JULHO DE 2009

 
 

Título: Ele é Terrível 
Publicação:
Semana 51
Autoria e revisão: responsabilidade dos autores
Autor: Elmira Mattos -
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Apesar de não ser fã do Roberto Carlos, reconheço: seu carisma e popularidade são incontestes. Talvez seja o único cantor popular que cativa todas as classes sociais. Do pedreiro ao engenheiro, da merendeira de escola pública ao secretário de educação, do conservador ao libertário, do faxineiro de hospital ao cirurgião-chefe, da empregada doméstica à patroa, do vereador ao senador, do alienado ao engajado, do oficial de cartório ao juiz; enfim, do Oiapoque ao Chuí, o “cara” tem uma legião de admiradores nesse mundão chamado Brasil.

Na época da Jovem Guarda, início do sucesso, sua máxima “rebeldia” roqueira consistia em mandar tudo pro inferno, se a amada o aquecesse no inverno. Daí, não foi difícil conquistar as garotas “papo firme”... Afinal, que “gatinha manhosa” resistiria a um “broto” que sofria ao esperar por ela? Que desprezava “o céu azul e o sol sempre a brilhar”, ícones do nosso “patropi”, caso a namorada não aparecesse? Foi o que bastou para cutucar a alma feminina de muitas adolescentes da época.

Com a consagração da Bossa Nova, que já vinha semeando seus sofisticados acordes - e a chegada da Tropicália, com letras mais anárquicas - a Jovem Guarda começou a perder terreno. Mas o Rei, numa grande sacada, deixou o rock-iê-iê-iê de lado, e liberou sua porção romântica. Passou a cantar o que muitos gostariam de falar e ouvir ao pé do ouvido. Suas músicas, com letras simples e mensagens diretas, evocam saudades, exortam a fé, convidam os amantes, estimulam as paixões; enfim, exaltam o amor em todas as suas formas e possibilidades. Mexem com todos os corações: desiludidos, tristes, apaixonados, felizes, inquietos, tranquilos... Não são composições criativas, mas agradam muita gente, até mesmo os mais críticos ou céticos. Falando de sentimentos que, em maior ou menor grau, todos sentem, sentiram ou sentirão, suas canções encontram eco em três ou quatro gerações.

O mais impressionante é a longevidade da sua bem sucedida carreira: cinqüenta anos! Se considerarmos que nos últimos sete ou oito anos não lançou nenhuma música; portanto, seus shows são sempre repetecos, a fidelidade dos fãs é mesmo espantosa.    

Sua legião de admiradores inclui também renomados cantores e compositores, de diferentes estilos e tendências. Bethânia, Caetano, Adriana Calcanhoto, Titãs, entre outros, interpretam com galhardia suas baladas românticas. Aliás, particularmente, acho que o repertório do Roberto fica bem mais interessante nas vozes desses artistas.

O fato é que o Rei não perde a majestade. Apesar da pouca inventividade, o ídolo continua marejando os olhos dos fãs. Anos sem compor nada de novo, décadas vestindo azul ou branco, sempre segurando o pedestal do microfone com as duas mãos, performance de palco absolutamente previsível, começa e encerra suas apresentações com as indefectíveis Emoções e Jesus Cristo, ele segue na cavalgada, emocionando multidões... Haverá algum segredo para tal fenômeno? Que alquimia de temperos é essa, que conquista paladares tão distintos? Qual é a fórmula mágica para tanto sucesso?

Chego a achar que não há fórmula alguma. Ele simplesmente escolheu um caminho, sem desafios nem ousadias. Curvas? Só na estrada de Santos... Mas deu certo. Supersticioso, não arrisca. Como em time que está ganhando não se mexe, segue tocando a bola, sem grandes dribles, mas com a certeza do gol. E a galera, agradecida e emocionada, não só aplaude como canta junto.

Mesmo não sendo admiradora, como desmerecê-lo se me pego, às vezes, cantando? Não tenho nenhum disco do rei. Show “ao vivo” só assisti uma vez, há mais de vinte anos. Mas sei a letra de várias canções, e algumas soam bem agradáveis. Não é incrível? Como explicar? Esse cara é terrível, é bom parar de provocar...